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31/12/2023 teste
A ELZA NOSSA DE CADA DIA...

ARTIGO: Por Otaviano Lacet


O verão potiguar mal tinha molhado o dedo mindinho na praia e lá já estava ela: a Elza, refestelada na areia a espera dos primeiros incautos. Sereia às avessas, esse "encosto de estimação" assombra arapucas que se travestem de estabelecimentos comerciais, tendo por hábito sugar qualquer centavo além do devido. E, do turista ao nativo, faz suas vítimas sem bairrismos.

Suas máscaras são as mais diversas, mas todas seguem os ditames das escolas filosóficas "se fazer de doido" e "se colar, colou". Pediu oito cervejas, mas cobraram doze? Besteira; e que tal uma corrida de taxi de vinte reais por vinte euros? Fichinha; vender uma rede peba de trinta contos por quinhentos? Homi, deixe de caninga aí!; mas, presepada mesmo, é cobrar oitenta reais para o cabra se sentar na areia da praia (aquele espaço público, sabe?!), mais quinze reais para estacionar no meio da rua (aquele outro espaço público, lembra?!) e depois empurrar preços triplicados em qualquer porcaria catingando a óleo velho. E, de "lambuja", o cliente ainda leva para casa as cobranças obrigatórias dos dez por cento e de uma falsa taxa de turismo* - que além de ser o suprassumo da cara de pau, tem seu valor definido de acordo com o achismo do garçom sobre de onde o cliente veio (estrangeiros a frente...).

E não adianta tentar escapar do "Elza System", pois além de estar entranhado até o talo no comércio praieiro, seus comungantes agem em bloco. E a estratégia básica consiste em, logo cedo, ocupar desordenadamente cada centímetro do espaço público da orla, desestimulando qualquer gota de escolha própria aos usuários da praia - que mais parecem peixes numa pesca de curral. Mas isso é a beira do buraco, pois do flanelinha ao dono do restaurante, da van turística ao menino vendendo cacareco, do "Seu Zé" que abre o coco ao "Seu João" que vende a cocada, todos se interligam numa pérfida rede (ou seria uma tarrafa?) de mútuo benefício, se retroalimentando ao melhor estilo "uma mão lava a outra e as duas os pés". Mas se a organização da fuleragem surpreende, o mesmo não pode ser dito pelos frutos deixados por ela, que resultam em praias imundas, visualmente caóticas e estressantes.

Porém, se enganam àqueles que não enxergam as consequências e o efeito dominó advindos de toda essa velhacaria. Sim, pois o clamor das vítimas engalobadas têm se avolumado e se espalhado feito rastro de pólvora, inclusive tendo sido a pauta de uma audiência convocada pelo TJRN no último dia 14, com a participação da prefeitura de Natal e do MPRN. E, ainda em termos imediatos, é visível o fato de que muitos turistas têm feito do RN um roteiro secundário, mero "bate e volta" dentro de pacotes turísticos que adotam outros estados como destinos principais. É como diz o ditado: "nada que começa errado termina certo".

É preciso entender que uma economia local saudável é, principalmente, o resultado de boas práticas, não apenas da exploração de belezas naturais existentes. E que, a cada atendimento, estamos não apenas "trabalhando", mas também representando nossas origens e construindo uma impressão que recai sobre todos que aqui residem. Por isso mesmo, quem tem vergonha na cara e não é filho de chocadeira jamais irá tolerar a existência da Elza - fica a dica!

 

* A taxa de turismo é cobrada apenas por hotéis (nunca por bares, restaurantes e similares), de forma facultativa ao hóspede e com valor irrisório (de R$2 a R$4). O montante arrecadado é gerido pela Natal Convention Bureaux e tem por finalidade custear a divulgação de destinos turísticos do RN.


   


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